Precisamos falar sobre a pílula

A cada dia que passa chegam a mim (e acredito que a muitas de nós) histórias de mulheres com complicações vasculares graves decorrentes do uso contínuo e prolongado de anticoncepcionais hormonais. Leia-se: pílula, injeções e outros métodos que se baseiam na liberação de hormônios femininos na corrente sanguínea.

Pra quem não sabe o uso de anticoncepcionais hormonais é fator de risco importante para trombose e outras condições vasculares sérias.

Na maioria dos consultórios de ginecologia as pílulas são prescritas sem critério, sem rastreamento de doenças pré-existentes que possam aumentar o risco de trombose (trombofilia, por exemplo), mal se pergunta ou se alerta sobre o risco de misturar pílula e tabagismo ou pílula e longas viagens de ônibus ou avião. E também não se conversa sobre o prazo do “tratamento”. 10, 20 anos direto tomando é comum por aí.
Muitas meninas chegam ao consultório adolescentes e saem com uma prescrição de pílula (quando não saem já com a caixinha na bolsa) para evitar a gravidez, para atenuar os sintomas menstruais, até mesmo para melhorar a pele.
Não se fala sobre o ciclo, não se fala sobre os riscos, não se propõe outras alternativas.

No que diz respeito à cólica, há pouquíssimas pesquisas visando a evolução de meios não hormonais pra aliviar os desconfortos menstruais. Isso não deve ser muito interessante de pesquisar diante desse monopólio das pílulas, né?
Enfiam logo a pílula nossas goelas abaixo, resolvendo o “nosso” problema de engravidar, deixando as mulheres, criaturas cíclicas e oscilantes por natureza, totalmente flat, em vez de trabalhar com a nossa ciclicidade, em vez de estimular o autoconhecimento e a aceitação da nossa natureza.

Por que também não ouvimos falar de pesquisas sobre anticoncepcionais masculinos? Já li que os poucos pesquisados causariam muitos efeitos colaterais nos homens. Tipo o que? Trombose? Embolia pulmonar, AVC e morte? Tem como ser pior que isso?

(Sobre isso, acabou de sair essa notícia aqui, bem interessante. Rezemos.)

Desde adolescentes entubamos a pílula. Muitas vezes por pressões do próprio parceiro, muitas vezes por implicância dos rapazes com a camisinha. E temos nós que arcar com o peso da responsabilidade de uma possível gravidez, como sempre, mesmo na hora de evitá-la.

Tão comum ouvirmos que “fulana é responsável, está se cuidando, tomando pílula direitinho”. Se cuidando. Pra ter uma trombose ou AVC daqui a 10 anos.

Isso é MUITO sério.

As meninas, ainda novinhas, precisam aprender sobre seus corpos, sobre seus ciclos. Precisam aprender a se observar e a buscar outras formas de administrar os desconfortos menstruais, mesmo que farmacologicamente, mas não implicando na total inibição do ciclo.

Ouço e leio muitos relatos contando que um dos motivos pelos quais o ginecologista prescreveu a pílula foi pra “regular o ciclo”. Regular? Inibindo completamente? Certo seria dizer de uma vez “inibir o ciclo”. Por que não falar a verdade?
Muitas contam como seu “ciclo” ficou certinho, um reloginho, depois da pílula, e que a menstruação passou a ser mais escassa e suave. Acontece que não te contaram que o sangramento que vem todo mês no mesmo dia e horário se chama sangramento por supressão, e não menstruação. E que ele acontece por que você deu aquele intervalo de 4 ou 7 dias (dependendo da dosagem/do fármaco) entre as cartelas, fazendo os níveis hormonais caírem e liberando o sangramento do quase nulo tecido endometrial que estava no útero.

E tem mais: e o câncer de mama? Certamente vocês já ouviram falar sobre a relação entre uso de anticoncepcionais hormonais e o risco pra câncer de mama, né? Isso é um pouco mais difundido do que os problemas de ordem vascular, ainda assim nem sempre somos perguntadas a respeito do histórico familiar antes de recebermos uma prescrição de anticoncepcionais hormonais. E isso é basicamente um PERIGO muito muito grande.

Temos que difundir essas informações. Temos que informar a todas as nossas amigas, irmãs, sobrinhas, filhas a respeito desses riscos que nos são quase que completamente omitidos.
A sociedade precisa aceitar e entender que nossa ciclicidade é natural e é bem vinda.

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