Pequena prova de resistência

Eis que surge um show imperdível. Quero ir. O pai quer ir. Vamos os três então.
Afinal, filha, neta, sobrinha de músicos tem que se habituar a esse tipo de coisa. Crescer nesse ambiente de shows e estúdios, como eu cresci. Ela vai curtir, é música, é divertido. Aham.
Chegou, pediu pra ir embora. Ficou com medo das luzes que se apagaram. Chorou, esperneou, me arrependi de ter ido. Gritou no meio do show, quase abri um buraco no chão e me enfiei.
Foi relaxando, curtindo os aplausos, aplaudindo junto. Começou a brincar e correr, dando gritinhos (cadê meu buraco no chão?).
Corre de cá, corre de lá, aplaude entusiasmada, dá uma dançadinha e fala bem alto “minha fralda tá caindo!” andando desengonçada.
Em breve teria que sair do auditório e catar um lugar pra trocar essa fralda.
“Fiz cocô!!” assim, bem alto. Olhei, não tinha nada, só uma fralda “saint tropez” de tão pesada. Resolvi trocar.
Vasculho a bolsa em busca da fralda e nada. Tiro tudo da bolsa e nada. Ficou em casa.
Comecei a rezar pra esse “fiz cocô” ter sido 100% alarme falso. Até um cheiro característico me tomar as narinas. 100% alarme verdadeiro de menina quase desfraldada.
E nada na bolsa. Nem fralda, nem calcinha, nem short, nem calça. E nem farmácia aberta no centro da cidade depois das 20h.
Tiramos a fralda, limpamos…e agora? Vestido puro sem nada por baixo?
“Pega esse vestido sobressalente aí e vamos amarrar ele aqui”: a grande idéia do pai. Oba! Sacola plástica na bolsa! Perfeito. Amarra daqui, puxa dali, Cecilia exclama “fralda de pano!” achando bem engraçado. Pronto.
E foi só ficar de pé que caiu tudo no chão.
Enquanto isso o show lindo, sublime, acontecendo. As músicas maravilhosas como trilha sonora da nossa pequena tragédia.
Bom, vai sem nada mesmo.
Sigo pedindo pra ela me avisar caso tivesse vontade de fazer xixi. Repeti algumas (muitas) vezes e a espoletinha correndo pra todos os lados com aquele vestido esvoaçante, curtindo a liberdade.
Acaba o show. Aplausos, cumprimentos, despedidas rápidas e eu preocupada com um possível estrago na cadeirinha do carro, quando me lembro que na mala havia uma sacola com absorventes pós-parto para doação.
Rá! Voltou pra casa sobre um deles, dormindo, desmaiada, chapada, entregue.
Cadeirinha intacta, criança dormindo como um anjo, pais destruídos.
Mas fomos ao show.