Um pouco mais sobre amamentação

Hoje começa a Semana Mundial do Aleitamento Materno (SMAM) e me deu vontade de escrever sobre algumas questões que encontramos pela frente ao longo desses 22 meses de amamentação (and counting…).

Vejo atualmente uma grande batalha a respeito de assuntos como a via de nascimento e a amamentação. Neste último caso, de um lado, ativistas extremos que defendem com unhas e dentes que o bebê deve ser deixado ao peito custe o que custar que o leite vem naturalmente, em decorrência desse estímulo. De outro, os que juram que o leite é pouco e fraco e dão logo uma mamadeira de fórmula antes mesmo de deixar a maternidade. Sinceramente, extremos não são legais…
Existe uma infinidade de variáveis no binômio Mãe-Bebê que contribui para sua singularidade. Cada família tem suas questões, sua dinâmica, seu jeito de encarar desafios. E se tem uma coisa que eu considero violência é passar por cima disso e pregar o que quer que seja.
Falando da minha experiência, que narrei neste texto, aqui, apesar de toda uma conjuntura a favor de um puerpério tranquilo e cheio de leite, o leite não veio como esperado. Veio devagarzinho, gradativamente. Sentia muita dor e certamente isso teve influência sobre a baixa produção de leite. Depois, a própria tensão gerada pela baixa produção de leite e perda de peso inicial da Cecilia foi, por si só, grande colaboradora para a manutenção dessa baixa produção.
Posteriormente, lendo sobre os processos fisiológicos da amamentação, descobri que os hormônios do estresse reduzem a produção e secreção de prolactina, o hormônio responsável pelo estímulo à produção de leite. Faz todo sentido.
Na natureza é muito comum mães estressadas “desandarem” na função da maternidade, comendo seus filhotes ou os abandonando. Todo mundo sabe que não se deve mexer num ninho com filhotes de pássaros, por exemplo, pois o cheiro das nossas mãos fica impregnado no ninho e estressa a mãe, que pode abandonar os filhotes. Estou dando exemplos mais extremos, mas eles ilustram muito bem o quanto essa sintonia é fina e o quão delicado é o período do puerpério.
Aqui, depois que relaxei a respeito de dar fórmula (por relactação), a coisa começou a fluir e o leite foi vindo. Eu decidi que não queria que ela passasse fome nunca mais. Decidi que daria a fórmula por sondinha pelo tempo que fosse necessário e que esse desmame da “amamentação artificial” se daria de forma gradual e espontânea. Foi exatamente o que aconteceu, aos 9 meses de idade dela. A relactação foi o nosso jeito de amamentar.
Até os 6 meses, Cecilia nunca ingeriu nada que não fosse através do peito, com auxílio da sondinha. Mamava no peito sem sondinha e, a cada 3h, eu oferecia o complemento na dose que eu sentia ser adequada. Aprendi a observar seus sinais de saciedade e quem ditava a dose era eu. Tivemos muito apoio do pediatra e da equipe do banco de leite do Instituto Fernandes Figueira, além de familiares e amigas (Saaantas criaturas!) empenhados nessa missão.
Recentemente descobri alguns textos contra-indicando este método (relactação) como forma de aleitamento, alegando que ele só serve para estimular a produção de leite em quem não amamenta mais e quer voltar (em caso de mães que tiveram que parar de amamentar por motivos de saúde) e em caso de adoção. Estes textos preconizam o uso do copinho (tipo aquele de cachaça ou mesmo de cafezinho) como única e exclusiva forma de oferecer fórmula ou leite ordenhado para o bebê em caso de necessidade. Sinceramente, eu acho um pouco (pra não dizer “um muito”) complicado você, puérpera, exausta, doída, nervosa, ter que acordar de madrugada e dar leite pra um bebê em um copinho. No mínimo, derrama. O bebê engasga. Você fica mais tensa. Você fica desesperada porque não está conseguindo alimentar o bebê. Você entra em pânico. Você dá uma mamadeira.
Eu acho sensacional quem consegue/conseguiu usar apenas o copinho pra oferecer leite ao bebê. Admiro demais. E sei que tem famílias que conseguem, que encontram um jeitinho, um esqueminha. Daquelas conjunturas únicas que só as famílias têm. E, vale dizer, o copinho é uma excelente opção pra quem não pode amamentar por que está com muitos ferimentos no peito (o que é bem comum no início da amamentação), por exemplo. Geralmente, esse período de ferimentos passa rápido e a amamentação natural pode seguir seu curso.
Mas quando o problema é baixa produção de leite, em alguns casos, como de mulheres que fizeram mamoplastia no passado, o complemento tem que ficar por todo o período de amamentação. E conheço mulheres incríveis que amamentam no peito, com sondinha, até bem depois de 1 ano do bebê, pois é o que há de melhor pra ele naquelas circunstâncias. Há todos os benefícios que mamar no peito oferece em termos de estímulos e desenvolvimento oro-facial, há o aconchego, há o leite materno, que mesmo insuficiente, está presente e é fundamental e há o aporte calórico da fórmula pra proteger a criança da desnutrição. E tudo bem que não foi aleitamento exclusivo por 6 meses. Foi o que deu pra ser. Foi muito batalhado, foi cuidado com carinho, com consciência e informação.
Acho que a grande chave está aí, na consciência e na informação. Toda escolha é válida quando se tem ferramentas reais para fazê-la. E quando falo em ferramentas reais, não estou incluindo o pediatra fofo que fala que “Teu leite é fraco, mãe. Coitadinho. Vamos dar uma mamadeirinha pra ele. Vai dormir que é uma beleza.”. Não. De jeito nenhum. Estou falando de buscar informações concretas e ajuda de profissionais amigos da amamentação, como consultoras e os que encontramos nos bancos de leite, dentre várias outras organizações, associações e sociedades dispostas a proteger esse bem tão precioso.

Segue abaixo uma listinha com alguns links importantes pra quem quer amamentar, quem amamenta, quem tem filha que amamenta, quem tem amiga que amamenta, quem tem companheira que amamenta, irmã, tia, prima…

Rede Brasileira de Bancos de Leite

Amigas do Peito
La Leche League
Aleitamento.com
Amamentar é – por Chris Nicklas
Breastfeeding Inc.